{"id":51,"date":"2021-12-17T15:34:20","date_gmt":"2021-12-17T18:34:20","guid":{"rendered":"http:\/\/geist.med.br\/?p=51"},"modified":"2024-09-25T13:40:09","modified_gmt":"2024-09-25T16:40:09","slug":"teoria-critica-e-psicanalise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/?p=51","title":{"rendered":"Teoria cr\u00edtica e Psican\u00e1lise"},"content":{"rendered":"\n<p>Entre as d\u00e9cadas de 1920 e 1930, surge uma perspectiva filos\u00f3fica que seria adotada, entre outras correntes, pela Escola de Frankfurt: o freudo-marxismo. Tal perspectiva teve como objetivo analisar a sociedade tanto por meio da lente econ\u00f4mica, desenvolvida por Karl Marx, quanto pela lente psicanal\u00edtica, desenvolvida por Sigmund Freud.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos motivos que levaram \u00e0 necessidade da utiliza\u00e7\u00e3o de tal m\u00e9todo pela Teoria Cr\u00edtica foi o funcionamento da ideologia. Era n\u00edtido que a ideologia n\u00e3o tinha bases exclusivas na an\u00e1lise econ\u00f4mica, n\u00e3o haviam motivos l\u00f3gicos econ\u00f4micos para, por exemplo, uma fam\u00edlia pobre na Alemanha nazista sustentar e apoiar avidamente um discurso autorit\u00e1rio que apenas a tornava mais pobre e que, al\u00e9m disso, muitas vezes tiravam seus filhos de seus pr\u00f3prios bra\u00e7os para morrerem na guerra em prol da manuten\u00e7\u00e3o desse regime. Os pensadores da \u00e9poca se depararam com uma barreira na an\u00e1lise econ\u00f4mica da sociedade: a ideologia. N\u00e3o era mais poss\u00edvel ignorar o fator psicol\u00f3gico, que tem um enorme valor em todas as muta\u00e7\u00f5es e perman\u00eancias vividas at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p>Tendo isso em vista, Horkheimer se distancia, no oitavo cap\u00edtulo de xxx \u201cAutoridade e Fam\u00edlia\u201d, da an\u00e1lise social feita pela teoria idealista. Ao passo que esses acreditavam haver um \u201cfatalismo\u201d, uma \u201cfor\u00e7a espiritual\u201d regente, respons\u00e1vel pelas mudan\u00e7as ao longo da hist\u00f3ria, tornando-a um mero \u201cdesdobramento ou representa\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio homog\u00eaneo\u201d, Horkheimer vai dizer que as necessidades econ\u00f4micas ditam as mudan\u00e7as na estrutura ps\u00edquica do indiv\u00edduo, dos grupos e das sociedades. Com isso, nota-se que as mudan\u00e7as hist\u00f3ricas n\u00e3o s\u00e3o fruto de uma \u201cfor\u00e7a espiritual\u201d, mas de um \u201cprocesso da a\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre natureza e sociedade, cultura existente e em devir, liberdade e necessidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Torna-se extremamente clara a necessidade de uma avalia\u00e7\u00e3o de inst\u00e2ncia ps\u00edquica nesse oitavo cap\u00edtulo. O autor afirma que, ao analisar as chamadas \u201ceras\u201d, como a Idade M\u00e9dia, por exemplo, evidenciam-se mudan\u00e7as (ou <em>tend\u00eancias<\/em>), como \u201ca posi\u00e7\u00e3o das classes sociais entre si\u201d, e perman\u00eancias (ou <em>normalidades<\/em>), como o \u201cprocesso mec\u00e2nico de trabalho\u201d. Segundo Horkheimer, era \u201caltamente verdadeiro\u201d que a forma de vida predominante na Europa no in\u00edcio do s\u00e9culo XX conduziria ao seu auto decl\u00ednio. Tanto as tens\u00f5es externas, a guerra entre as grandes na\u00e7\u00f5es de poder, quanto as internas, a luta entre as classes sociais, levaria inevitavelmente, \u00e0s lentes de uma an\u00e1lise puramente econ\u00f4mica, ao fim desse \u201cregime social\u201d. Entretanto, n\u00e3o foi isso que aconteceu. O autor aponta que \u201co modo de agir dos homens, por\u00e9m, num dado instante, n\u00e3o pode ser explicado somente pelos processos econ\u00f4micos que ocorreram no momento imediatamente anterior\u201d, torna-se necess\u00e1ria uma compreens\u00e3o da \u201cconstitui\u00e7\u00e3o ps\u00edquica\u201d daquele indiv\u00edduo enquanto membro daquela classe, daquela cultura, daquela fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se analisar \u201cos conceitos gerais que constituem o fundamento da teoria social\u201d, \u00e9 de suma import\u00e2ncia defini-los enquanto pertencentes \u00e0 \u00e9poca em an\u00e1lise e enquanto elemento n\u00e3o isolado de outros conceitos. O autor deixa isso claro quando disserta sobre a autoridade. Em uma imensa maioria das civiliza\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o em todas, uma maioria se subordina a uma minoria, e isso sempre levou, invariavelmente, a uma \u201cpiora da exist\u00eancia material\u201d da maioria. Como o pr\u00f3prio Horkheimer aponta, \u00e9 certo que houveram \u00e9pocas nas quais escravos eram fisicamente for\u00e7ados a realizar suas tarefas. Entretanto, existiu e existe uma imensid\u00e3o de grupos civilizat\u00f3rios nos quais os indiv\u00edduos se subordinam <em>voluntariamente <\/em>\u00e0s autoridades, um interesse \u201creal e consciente\u201d de manter essa ordem autorit\u00e1ria, por mais que esse n\u00e3o esteja inclu\u00eddo no grupo dominante, o que torna toda essa rela\u00e7\u00e3o ainda mais estranha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A possibilidade de explicar esse evento analisando o indiv\u00edduo e seu car\u00e1ter como sendo formados de modo isolado em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade n\u00e3o \u00e9 mais satisfat\u00f3ria, se torna \u00f3bvia a conex\u00e3o. N\u00e3o existem mais argumentos s\u00f3lidos capazes de sustentar uma argumenta\u00e7\u00e3o que independe do fator ps\u00edquico do indiv\u00edduo enquanto criado, educado e desenvolvido nesse meio. A rela\u00e7\u00e3o, inicialmente, com os pais e, posteriormente, com outros ciclos (escola, trabalho, religi\u00e3o, amigos) \u00e9 fator decisivo para a manuten\u00e7\u00e3o ou destrui\u00e7\u00e3o do regime social vigente. Segundo Horkheimer (1990, p.213) \u201cConsidero o homem, diz Helv\u00e9tius, \u2018um aluno de todos os objetos que o rodeiam, de todas as situa\u00e7\u00f5es que o coloca o acaso, enfim de todos os fatos que lhe acontecem\u2019\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O fator mais importante e indispens\u00e1vel para perpetuar a aceita\u00e7\u00e3o do absolutismo no indiv\u00edduo \u00e9 a fam\u00edlia. Essa institui\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o importante que d\u00e1 nome ao cap\u00edtulo tratado, \u201cAutoridade e fam\u00edlia\u201d. Existem alguns mecanismos ocorrentes no per\u00edodo de desenvolvimento do indiv\u00edduo em rela\u00e7\u00e3o aos seus pais que s\u00e3o respons\u00e1veis por <em>moldar<\/em> o consciente e o inconsciente desse. Horkheimer deixa n\u00edtida a influ\u00eancia dos pais sob os sentimentos e desejos daquela crian\u00e7a. A fam\u00edlia molda o indiv\u00edduo em acordo com o que se deseja de um homem ou uma mulher adulto(a), em acordo com o esperado pela sociedade, mais especificamente pela burguesia, que deseja permanecer no poder e desincentiva qualquer atitude rebelde que coloque em xeque o seu prest\u00edgio social.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa se tornou uma forma extraordin\u00e1ria de manipula\u00e7\u00e3o, de absolutismo. Se torna literalmente absoluto o poder burgu\u00eas, ele controla consciente e inconscientemente os sentimentos e desejos das outras classes e da sua . E, por meio dos mecanismos que ser\u00e3o abordados posteriormente, essa manipula\u00e7\u00e3o se perpetua de pai para filho com excel\u00eancia, e dificilmente essa corrente \u00e9 quebrada.<\/p>\n\n\n\n<p>Como o autor bem aponta, \u201ca tarefa da fam\u00edlia de educar para o comportamento autorit\u00e1rio\u201d j\u00e1 havia sido aplicada pelo cristianismo, e o pr\u00f3prio Santo Agostinho comentou sobre. Horkheimer cita um trecho da obra de Agostinho no qual \u00e9 explicado a import\u00e2ncia de a dicotomia mandar e obedecer ser introduzida no meio familiar, para adaptar o indiv\u00edduo a essa dicotomia \u201cnatural\u201d no ambiente extrafamiliar. Entretanto, apesar de essa rela\u00e7\u00e3o estar presente no texto de Santo Agostinho, h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a: o autor medieval trata apenas da imposi\u00e7\u00e3o consciente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Esse trecho foi trazido pelo autor apenas para expor que a manipula\u00e7\u00e3o familiar j\u00e1 era presente mesmo no per\u00edodo medieval. Ser\u00e1 aprofundado, no entanto, a inst\u00e2ncia primordial e n\u00e3o comentada que \u00e9 a inconsciente.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda consciente, mas de forma um pouco mais profunda, a manipula\u00e7\u00e3o da doutrina protestante teve papel essencial na for\u00e7a de manuten\u00e7\u00e3o do regime social que privilegia a burguesia. A ideia de predestina\u00e7\u00e3o trazida por essa religi\u00e3o torna muito mais f\u00e1cil a manipula\u00e7\u00e3o da massa. Se a crian\u00e7a de classe baixa n\u00e3o consegue ser um empres\u00e1rio, por exemplo, n\u00e3o \u00e9 por conta do sistema que n\u00e3o lhe d\u00e1 oportunidades, mas dela, que n\u00e3o tem voca\u00e7\u00e3o para aquilo, ou at\u00e9 mesmo de Deus, que n\u00e3o escreveu no livro do destino que ela seria rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Toda a explica\u00e7\u00e3o presente neste texto at\u00e9 o momento \u00e9 de ordem consciente, ainda n\u00e3o foram abordados argumentos que sustentem a explica\u00e7\u00e3o inconsciente desse fen\u00f4meno. Como j\u00e1 dito, \u00e9 imprescind\u00edvel analisar a parte inconsciente. Existem elementos presentes em uma imensa parte dos indiv\u00edduos que, por mais que eles pr\u00f3prios n\u00e3o tenham consci\u00eancia, os impedem de questionar tal regime social, de questionar o porqu\u00ea de ele precisar trabalhar 15h por dia para n\u00e3o morrer de fome, ou o porqu\u00ea de ele precisar correr risco de vida em uma guerra para \u201cdefender sua na\u00e7\u00e3o\u201d, na\u00e7\u00e3o essa que n\u00e3o faz absolutamente nada por ele.<\/p>\n\n\n\n<p>Abordarei aqui dois fatores ps\u00edquicos que julgo de suma import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o desse fen\u00f4meno: o conceito psicanal\u00edtico de identifica\u00e7\u00e3o e o par sadismo-masoquismo. Comecemos, ent\u00e3o, pelo conceito de identifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O significado de identifica\u00e7\u00e3o na psican\u00e1lise \u00e9 um pouco diferente do que o que se utiliza habitualmente na l\u00edngua portuguesa. N\u00e3o se trata de uma identifica\u00e7\u00e3o no sentido de encontrar algo no outro que se assemelha a um elemento que se tem em si, mas tornar-se id\u00eantico ao outro. A <em>identifica\u00e7\u00e3o<\/em> que nos interessa&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>corresponde \u00e0 forma reflexiva do verbo \u2018identificar\u2019, isto \u00e9, \u2018<em>identificar-se<\/em>\u2019. Diremos que um sujeito se identifica com algu\u00e9m ou alguma coisa quando ele se confunde com esse algu\u00e9m ou essa coisa, quando ele vai at\u00e9 o outro para assimil\u00e1-lo e assimilar-se a ele, at\u00e9 tornar-se id\u00eantico. (NASIO, 1999, p.80)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Existem, ent\u00e3o, dois tipos de identifica\u00e7\u00e3o: a consciente e a inconsciente. A primeira \u00e9 um movimento <em>consciente<\/em> do indiv\u00edduo em dire\u00e7\u00e3o ao outro, seja esse outro um \u00eddolo, um l\u00edder ou seu pr\u00f3prio pai. A segunda, que \u00e9 a que mais nos interessa, se d\u00e1 de uma maneira que o indiv\u00edduo n\u00e3o tem consci\u00eancia, apesar de ser um movimento <em>ativo<\/em>, de que est\u00e1 se tornando id\u00eantico ao outro. Dividiremos, ainda, a identifica\u00e7\u00e3o inconsciente em duas classes, que chamaremos aqui de <em>identifica\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os f\u00edsicos <\/em>e a de <em>tra\u00e7os sentimentais. <\/em>A identifica\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os f\u00edsicos \u00e9 percebida quando, por exemplo, o filho come\u00e7a a falar no mesmo tom que o pai, caminhar na mesma passada, fazer os mesmos gestos, e tudo isso de forma inconsciente. A segunda forma de identifica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 novamente a que cabe ao texto, \u00e9 a de tra\u00e7os sentimentais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tipo de identifica\u00e7\u00e3o o indiv\u00edduo come\u00e7a a assumir para si, de forma inconsciente, as \u201cemo\u00e7\u00f5es, sentimentos, afetos, desejos e at\u00e9 fantasias\u201d (NASIO, 1999, p. 82) daquele com o qual ele se identifica. Nesse sentido, ent\u00e3o, o filho, por exemplo, come\u00e7a a ter os mesmos medos e desejos do pai. Entretanto, pode ocorrer um fen\u00f4meno interessante que \u00e9 o fato de muitas vezes os sentimentos que o filho adota do pai serem desconhecidos at\u00e9 mesmo pelo pr\u00f3prio pai, medos e desejos presentes apenas no inconsciente do pai dos quais ele n\u00e3o tem consci\u00eancia. Isso permite, portanto, que os medos presentes no inconsciente do pai em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade da burguesia, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria autoridade em si, rela\u00e7\u00f5es de obedi\u00eancia e etc. sejam transferidos para o inconsciente do filho sem que <em>ambos<\/em> percebam. Esse fen\u00f4meno permite, portanto, que o medo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autoridade burguesa, ou qualquer outra autoridade, seja perpetuado por gera\u00e7\u00f5es sem que isso seja percebido.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fator de grande import\u00e2ncia para a compreens\u00e3o do porqu\u00ea o car\u00e1ter autorit\u00e1rio ser t\u00e3o presente na sociedade analisada por Horkheimer \u00e9 o sadismo-masoquismo, ou sadomasoquismo, termo utilizado particularmente por Daniel Lagache. Sadismo e masoquismo s\u00e3o dois conceitos que, segundo a teoria psicanal\u00edtica, est\u00e3o interligados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Erich Fromm, psicanalista e fil\u00f3sofo do s\u00e9culo XX, foi um dos pilares da discuss\u00e3o que intersecciona o sadomasoquismo e a Teoria Cr\u00edtica. Segundo o psicanalista, \u201co car\u00e1ter sadomasoquista constitui a base pulsional da personalidade autorit\u00e1ria\u201d (ROUANET, 1986, p.55). Mas \u00e9 necess\u00e1rio, antes, passar pela explica\u00e7\u00e3o referente ao sadomasoquismo em si para, posteriormente, abord\u00e1-lo enquanto ferramenta de an\u00e1lise social.<\/p>\n\n\n\n<p>O sadismo consiste na realiza\u00e7\u00e3o da puls\u00e3o de domina\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, enquanto o masoquismo \u00e9 o retorno dessa puls\u00e3o ao mesmo. O prazer no sadomasoquismo est\u00e1 relacionado, portanto, em um momento, na obedi\u00eancia ao dominante e, em outro, em ser o dominante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA submiss\u00e3o incondicional ao poder implica, ao mesmo tempo, inveja e agressividade\u201d (ROUANET, 1986, p.56). Por mais que haja prazer na obedi\u00eancia, o indiv\u00edduo tem inveja da posi\u00e7\u00e3o de domin\u00e2ncia e deseja estar nela tamb\u00e9m, no entanto, ao trazer o sadomasoquismo para a Teoria Cr\u00edtica, essa mudan\u00e7a de postos (dominante-dominado) n\u00e3o se d\u00e1 entre as mesmas pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No capitalismo monopolista, como era o caso da Alemanha nazista, existia uma enorme aceita\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 opress\u00e3o do F\u00fchrer. Em rela\u00e7\u00e3o a ele, os pap\u00e9is nunca mudavam, ele sempre seria o dominante e o restante da popula\u00e7\u00e3o seriam os dominados. Mas, como j\u00e1 dito, as pessoas de car\u00e1ter sadomasoquista desejam ocupar os dois postos e, portanto, assim faziam.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cOs sentimentos hostis e agressivos que n\u00e3o podem dirigir-se contra os poderosos dirigem-se contra os d\u00e9beis, A impossibilidade de exercer sua vontade contra os fortes \u00e9 compensada pelo prazer de sujeitar os indefesos a uma tirania implac\u00e1vel\u201d (FROMM, 1932, p.287)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cO capitalismo monopolista altera os dados da realidade\u201d. A cada vez maior concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, e, por consequ\u00eancia, de poder, anula aquela ilus\u00e3o de mobilidade econ\u00f4mica implementada pela l\u00f3gica liberal. A crise e o desemprego come\u00e7am a assumir for\u00e7as \u201cirredut\u00edveis \u00e0 a\u00e7\u00e3o consciente do homem\u201d e \u201cnesse momento, o car\u00e1ter sadomasoquista se torna dominante\u201d, pois quanto mais guerras e cat\u00e1strofes tomam conta da vida do indiv\u00edduo, mais \u201cviolenta e mais generalizada \u00e9 a estrutura pulsional sadomasoquista, e, portanto, a estrutura caracterol\u00f3gica autorit\u00e1ria\u201d. O car\u00e1ter masoquista que permite o prazer nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o, \u00e9 o que \u201cpermite ao homem suportar tal exist\u00eancia\u201d e mostra-se \u201ccomo uma das condi\u00e7\u00f5es ps\u00edquicas mais importantes para o funcionamento da sociedade\u201d (FROMM, 1932, p.291). Tal car\u00e1ter sadomasoquista se torna, ent\u00e3o, uma ferramenta muito poderosa na manuten\u00e7\u00e3o do sistema autorit\u00e1rio. Este permite a aceita\u00e7\u00e3o do dom\u00ednio de um grupo pequeno de pessoas ou at\u00e9 mesmo de uma \u00fanica pessoa, o F\u00fchrer messi\u00e2nico.<\/p>\n\n\n\n<p>A forma que o indiv\u00edduo pensa n\u00e3o \u00e9 mais a mesma do liberalismo, ele sabe que n\u00e3o h\u00e1 mais possibilidade de ascens\u00e3o, mas al\u00e9m de tudo, ele tem a \u201cvontade de n\u00e3o ascender\u201d. O homem \u00e9, ent\u00e3o, moldado a sentir prazer com tal situa\u00e7\u00e3o. Entretanto, ele sabe que o F\u00fchrer \u201cn\u00e3o \u00e9 um modelo a ser imitado\u201d, este \u00e9 muito superior. N\u00e3o podendo ser igual a ele, o indiv\u00edduo tenta \u201cparticipar de sua grandeza\u201d desta forma:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Essa gratifica\u00e7\u00e3o substitutiva narcisista, obtida pela submiss\u00e3o masoquista a um Poder mais alto, n\u00e3o \u00e9 alcan\u00e7ada apenas na rela\u00e7\u00e3o com o l\u00edder, mas no fato de participar do brilho da Na\u00e7\u00e3o ou da Ra\u00e7a. Quanto mais o indiv\u00edduo valoriza a for\u00e7a e a grandeza do Poder do qual participa, maior sua gratifica\u00e7\u00e3o. (FROMM, 1932, p. 294)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O indiv\u00edduo est\u00e1, agora, devidamente manipulado. As formas de socializa\u00e7\u00e3o deste, primeiro com a fam\u00edlia, e, posteriormente, com \u201caparelhos de Estado\u201d, buscar\u00e3o a produ\u00e7\u00e3o em massa de homens e mulheres com car\u00e1ter social sadomasoquista, assegurando, assim, a manuten\u00e7\u00e3o desse regime social, o capitalismo monopolista.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes conceitos psicanal\u00edticos (a identifica\u00e7\u00e3o e o sadomasoquismo) s\u00e3o apenas dois que podem ser e foram utilizados como ferramentas no aux\u00edlio da an\u00e1lise social realizada pela Teoria Cr\u00edtica. Como Horkheimer bem apontou, passou a ser imposs\u00edvel entender os fen\u00f4menos ocorridos na sociedade apenas atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise socioecon\u00f4mica que independe do fator ps\u00edquico e, de fato, isso se mostrou verdadeiro. A compreens\u00e3o dos movimentos sociais fica mais clara ao ser desenvolvida uma explica\u00e7\u00e3o que leve em conta conceitos psicanal\u00edticos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Visando compreender mais a fundo o funcionamento de uma sociedade num regime autorit\u00e1rio, os pensadores da Escola de Frankfurt decidiram que uma an\u00e1lise puramente econ\u00f4mica n\u00e3o mais bastaria<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":52,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-51","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-filosofia"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/51","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=51"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/51\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/51\/revisions\/53"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/52"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=51"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=51"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=51"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}