{"id":42,"date":"2021-12-17T13:54:40","date_gmt":"2021-12-17T16:54:40","guid":{"rendered":"http:\/\/geist.med.br\/?p=42"},"modified":"2024-09-25T13:40:14","modified_gmt":"2024-09-25T16:40:14","slug":"42","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/?p=42","title":{"rendered":"Kant e o sono dogm\u00e1tico"},"content":{"rendered":"\n<p>Tendo em vista a passagem dos Proleg\u00f4menos, de Immanuel Kant, na qual o fil\u00f3sofo afirma que David Hume foi o grande respons\u00e1vel por retirar-lhe de seu <em>sono dogm\u00e1tico<\/em>, este trabalho visa elucidar qual foi a cr\u00edtica de Hume \u00e0 metaf\u00edsica respons\u00e1vel por incentivar Kant a estabelecer um estatuto cient\u00edfico da metaf\u00edsica, assim como as demais \u00e1reas da ci\u00eancia, como a matem\u00e1tica e a f\u00edsica, j\u00e1 possu\u00edam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A metaf\u00edsica, at\u00e9 Hume, era tida como necess\u00e1ria e inquestionavelmente verdadeira. Os conceitos produzidos por ela eram tidos, para os fil\u00f3sofos, como imprescind\u00edveis, por isso Kant afirma que essa \u00e1rea da filosofia era extremamente dogm\u00e1tica. Mas de que forma D. Hume mudou o rumo da discuss\u00e3o?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O c\u00e9tico e empirista Hume fez uma proposi\u00e7\u00e3o que, apesar de n\u00e3o ter sido tida como relevante pelos fil\u00f3sofos de seu tempo, como <em>Reid, Oswald Beattie, e finalmente Priestley<\/em>, deveria, segundo Kant, ter levado esses a pensar e defender a metaf\u00edsica. O ataque do pensador empirista \u00e0 metaf\u00edsica foi: com base em que a raz\u00e3o postula a necessidade da <em>conex\u00e3o de causa e efeito<\/em>? Por que ela acha que determinado resultado \u00e9 imprescind\u00edvel uma vez que isto ou aquilo foi posto? Hume provou, segundo Kant, \u201cde modo irrefut\u00e1vel\u201d, que essa conex\u00e3o de causa e efeito que a raz\u00e3o tenta produzir \u00e9 inteiramente fict\u00edcia, um <em>bastardo da imagina\u00e7\u00e3o<\/em>, fruto do h\u00e1bito da raz\u00e3o que, por ter conhecido essa conex\u00e3o uma vez, a julga sempre necess\u00e1ria.&nbsp;Essa afronta foi, aos olhos de Kant, algo que poderia ter \u201cacendido uma luz, caso tivesse encontrado uma mecha receptiva cuja chama fosse cuidadosamente mantida e alimentada\u201d. Hume, entretanto, se precipitou, segundo o fil\u00f3sofo prussiano, ao dizer que, por conta disso, a metaf\u00edsica n\u00e3o era logicamente poss\u00edvel. O empirista afirmou que, o fato de as <em>supostas cogni\u00e7\u00f5es a priori <\/em>da metaf\u00edsica serem fruto de uma conclus\u00e3o fict\u00edcia, a saber, a conex\u00e3o entre causa e efeito, a tornava, consequentemente, mera fic\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o. Apesar de precipitada, \u00e9 uma cr\u00edtica embasada num pensamento l\u00f3gico, e que deveria ter tido mais aten\u00e7\u00e3o dos pensadores da \u00e9poca, mas Hume n\u00e3o foi compreendido. Ele teve a iniciativa de questionar o inquestion\u00e1vel at\u00e9 ent\u00e3o, se opondo ao dogma da metaf\u00edsica. \u00c9 importante notar que Hume n\u00e3o colocou em questionamento a utilidade da conex\u00e3o causa e efeito, mas sua possibilidade. Ela seria de extrema utilidade, se fosse poss\u00edvel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Tal d\u00favida proposta por David Hume leva ao tema do trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Admito sem hesitar: a recorda\u00e7\u00e3o de David Hume foi exatamente aquilo que, h\u00e1 muitos anos, primeiro interrompeu meu sono dogm\u00e1tico e deu uma dire\u00e7\u00e3o completamente diversa \u00e0s minhas investiga\u00e7\u00f5es no campo da filosofia especulativa. (KANT, 2014, p. 28)&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Kant, ao se deparar com esse questionamento, no m\u00ednimo desconfortante, se sentiu na obriga\u00e7\u00e3o de defender a metaf\u00edsica, por assim dizer. Immanuel Kant julgou o trabalho de Hume como <em>decisivo<\/em>, no entanto, incompleto. O empirista, ao questionar a possibilidade da metaf\u00edsica, \u201cancorou seu barco, para mant\u00ea-lo seguro, na praia\u201d do ceticismo, ao inv\u00e9s de dar continuidade \u00e0 sua cr\u00edtica. Kant, por sua vez, deseja tomar o tim\u00e3o do barco metaf\u00edsico para terminar o servi\u00e7o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi formid\u00e1vel o trabalho de David Hume, como o pr\u00f3prio Kant afirma. No entanto, o fil\u00f3sofo prussiano toma as r\u00e9deas da metaf\u00edsica e decide lev\u00e1-la a um lugar nunca antes explorado. Seria necess\u00e1rio, para se estabelecer um estatuto metaf\u00edsico, explorar e explicar cada aspecto da raz\u00e3o pura a fim de se conseguir provar sua autonomia quanto \u00e0 experi\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mas a raz\u00e3o pura \u00e9 uma esfera t\u00e3o isolada e t\u00e3o completamente coesa em seu interior que n\u00e3o se pode tocar em nenhuma de suas partes sem perturbar todo o resto, nem ajust\u00e1-las sem que se tenha antes determinado para cada uma seu lugar e sua influ\u00eancia nas outras. (KANT, 2014, p.31)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Querendo provar a possibilidade da metaf\u00edsica, Kant percebeu que, para isso, deveria provar a possibilidade de <em>conceitos puros da raz\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Para isso, o autor decide analisar as ci\u00eancias independentes dos sentidos que j\u00e1 possuem um estatuto. Ele analisa, nos Proleg\u00f4menos, o que torna poss\u00edvel a matem\u00e1tica pura, bem como a ci\u00eancia pura da natureza, para chegar, ent\u00e3o, naquilo que torna poss\u00edvel o estatuto da metaf\u00edsica em geral. Entretanto, como bem apontado por Kant, nem a matem\u00e1tica pura e nem a ci\u00eancia pura da natureza precisam&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>de nenhuma dedu\u00e7\u00e3o como a que realizamos at\u00e9 agora para ambas; pois a primeira apoia-se em sua pr\u00f3pria evid\u00eancia, e a segunda, embora surgindo de fontes puras do entendimento, apoia-se na experi\u00eancia e em sua cont\u00ednua confirma\u00e7\u00e3o [&#8230;]. Assim, ambas as ci\u00eancias necessitam da investiga\u00e7\u00e3o precedente n\u00e3o para si pr\u00f3prias, mas com vistas a outra ci\u00eancia, a saber, a metaf\u00edsica. (KANT, 2014, p.107)<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O fato de as cogni\u00e7\u00f5es transcendentes da raz\u00e3o n\u00e3o serem pass\u00edveis de refuta\u00e7\u00e3o ou confirma\u00e7\u00e3o por outro meio que n\u00e3o a pr\u00f3pria raz\u00e3o foi o que levou Hume a cometer o erro em sua tese. De acordo com Kant, a \u201cenumera\u00e7\u00e3o, classifica\u00e7\u00e3o e especifica\u00e7\u00e3o desses conceitos\u201d, a saber, os tipos de cogni\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m os \u201cconceitos pertencentes a cada um deles\u201d, n\u00e3o seria poss\u00edvel utiliz\u00e1-los da maneira correta, ou seja, sem saber se \u201co que se possui j\u00e1 \u00e9 o suficiente, ou se, e onde, algo ainda poderia estar faltando\u201d. Por conta disso Hume foi t\u00e3o importante para Kant e a metaf\u00edsica. Sem a advert\u00eancia humeana quanto ao dogma metaf\u00edsico anterior, provavelmente Immanuel Kant n\u00e3o teria se empenhado de tal maneira para provar a possibilidade dos conceitos metaf\u00edsicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esse texto trata de como o c\u00e9tico Davis Hume incentivou Kant a mudar a hist\u00f3ria da metaf\u00edsica.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":43,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[12],"tags":[],"class_list":["post-42","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-filosofia"],"aioseo_notices":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/42","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=42"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/42\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/42\/revisions\/45"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/43"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=42"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=42"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/danielbatelli.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=42"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}