A técnica para Ortega y Gasset

Este resumo abordará o primeiro capítulo de “Meditação da Técnica”, obra de Ortega y Gasset. Tal capítulo apresentará uma definição precisa, apesar de chamada de “tosca” pelo próprio autor, à pergunta “Que é a técnica?”. O autor vai mostrar como a técnica surgiu, qual foi o motivo para essa vontade de “reformar” a natureza, como ele coloca.

O capítulo se inicia com uma proposta: responder à pergunta “Que é a técnica?”, para que seus leitores estejam preparados quando essa pergunta surgir, uma vez que ele aponta que este será um tema bastante discutido num futuro próximo. Gasset faz uma observação antes de iniciar sua discussão sobre o assunto. Ele afirma que, apesar de muitos acharem controverso, o homem escolhe viver, isso não lhe é imposto. Tal afirmação leva a explicação num rumo interessante. Mas isso será explicado no decorrer do resumo.

Para iniciar sua resposta à pergunta, o autor cria uma narrativa. Um homem está numa tempestade, com frio, no momento em que um relâmpago atinge um posto no bosque e o ateia fogo. O homem então se aproxima para aquecer-se, uma vez que o frio ameaça a existência que o homem deseja ter. O acaso salvou a vida do homem, não fosse pelo relâmpago ele teria morrido de frio. 

O homem precisa de coisas como se aquecer, se alimentar ou até fugir de uma presa para sobreviver. Como dito, essas coisas não são necessárias por si, mas para que o homem continue vivo – lembrando que isso não se passa de uma escolha, na visão do autor. Esses são fatores inevitáveis, ou “inevitabilidades”, para que o homem tenha a existência tão desejada. Caso ele pudesse escolher não ter tais necessidades, ele assim faria e ainda lhe restariam muitas coisas a fazer, e isso é um ponto importante. Diferente dos outros animais, a vida do homem não se resume às suas necessidades fisiológicas. Ao leão não resta nada a não ser passar fome e ir caçar ou passar sede e buscar água, mas isso não é verdade para o homem. O homem deseja existir, e essas necessidades são apenas empecilhos.

E isso, inesperadamente, nos descobre a constituição estranhíssima do homem: enquanto todos os demais seres coincidem com suas condições objetivas – com a natureza ou circunstância – o homem não coincide com esta, já que é alguma coisa alheia e distinta de sua circunstância; mas não tendo outro remédio, se quer ser e estar nela, tem que aceitar as condições que esta lhe impõe. (ORTEGA Y GASSET, 1939, p. 12)

“O empenho em viver é tão grande que quando o homem não pode satisfazer as necessidades inerentes à sua vida” (ORTEGA Y GASSET, 1939), pelo fato de ao seu redor não o serem dados os elementos necessários para sua sobrevivência, ele os faz, cria seu próprio fogo, planta sua própria comida, inventa uma ferramenta de caça, faz uma construção alta para ficar longe de predadores naturais, tudo para eliminar os “empecilhos”. É errônea, segundo Gasset, a tentativa de definir a técnica como algo que satisfaça as necessidades do homem, pelo contrário, ela tenta as anular. A técnica segundo o autor é “a reforma que o homem impõe à natureza em vista da satisfação de suas necessidades”, ou seja, o indivíduo altera o meio, a natureza, para não mais ser atrapalhado pelas necessidades impostas por ela, como um contra-ataque a esta. Ele cria coisas que nunca existiram ou que não existam no atual momento para que sua existência não seja ameaçada. E tudo isso deriva de sua escolha de viver.

Este capítulo do livro é muito interessante para perceber como surgem os atos técnicos na existência do homem. Esses atos técnicos surgem no momento em que o homem precisa de elementos dos quais sua existência depende, mas que naquele momento não estão presentes. Como o próprio autor diz, se todas as vezes que o homem passasse frio a natureza o fornecesse calor, ele não precisaria fazer fogo. A necessidade da técnica surge, portanto, das dificuldades que a natureza apresenta com relação ao desejo do homem de não apenas sobreviver, mas de viver.

Mas este é apenas o primeiro capítulo. Convido todos a lerem esse incrível livro chamado “Meditação da técnica”, de Ortega y Gasset.

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