Teoria crítica e Psicanálise

Entre as décadas de 1920 e 1930, surge uma perspectiva filosófica que seria adotada, entre outras correntes, pela Escola de Frankfurt: o freudo-marxismo. Tal perspectiva teve como objetivo analisar a sociedade tanto por meio da lente econômica, desenvolvida por Karl Marx, quanto pela lente psicanalítica, desenvolvida por Sigmund Freud.

Um dos motivos que levaram à necessidade da utilização de tal método pela Teoria Crítica foi o funcionamento da ideologia. Era nítido que a ideologia não tinha bases exclusivas na análise econômica, não haviam motivos lógicos econômicos para, por exemplo, uma família pobre na Alemanha nazista sustentar e apoiar avidamente um discurso autoritário que apenas a tornava mais pobre e que, além disso, muitas vezes tiravam seus filhos de seus próprios braços para morrerem na guerra em prol da manutenção desse regime. Os pensadores da época se depararam com uma barreira na análise econômica da sociedade: a ideologia. Não era mais possível ignorar o fator psicológico, que tem um enorme valor em todas as mutações e permanências vividas até hoje.

Tendo isso em vista, Horkheimer se distancia, no oitavo capítulo de xxx “Autoridade e Família”, da análise social feita pela teoria idealista. Ao passo que esses acreditavam haver um “fatalismo”, uma “força espiritual” regente, responsável pelas mudanças ao longo da história, tornando-a um mero “desdobramento ou representação de um princípio homogêneo”, Horkheimer vai dizer que as necessidades econômicas ditam as mudanças na estrutura psíquica do indivíduo, dos grupos e das sociedades. Com isso, nota-se que as mudanças históricas não são fruto de uma “força espiritual”, mas de um “processo da ação recíproca entre natureza e sociedade, cultura existente e em devir, liberdade e necessidade”.

Torna-se extremamente clara a necessidade de uma avaliação de instância psíquica nesse oitavo capítulo. O autor afirma que, ao analisar as chamadas “eras”, como a Idade Média, por exemplo, evidenciam-se mudanças (ou tendências), como “a posição das classes sociais entre si”, e permanências (ou normalidades), como o “processo mecânico de trabalho”. Segundo Horkheimer, era “altamente verdadeiro” que a forma de vida predominante na Europa no início do século XX conduziria ao seu auto declínio. Tanto as tensões externas, a guerra entre as grandes nações de poder, quanto as internas, a luta entre as classes sociais, levaria inevitavelmente, às lentes de uma análise puramente econômica, ao fim desse “regime social”. Entretanto, não foi isso que aconteceu. O autor aponta que “o modo de agir dos homens, porém, num dado instante, não pode ser explicado somente pelos processos econômicos que ocorreram no momento imediatamente anterior”, torna-se necessária uma compreensão da “constituição psíquica” daquele indivíduo enquanto membro daquela classe, daquela cultura, daquela família.

Ao se analisar “os conceitos gerais que constituem o fundamento da teoria social”, é de suma importância defini-los enquanto pertencentes à época em análise e enquanto elemento não isolado de outros conceitos. O autor deixa isso claro quando disserta sobre a autoridade. Em uma imensa maioria das civilizações, se não em todas, uma maioria se subordina a uma minoria, e isso sempre levou, invariavelmente, a uma “piora da existência material” da maioria. Como o próprio Horkheimer aponta, é certo que houveram épocas nas quais escravos eram fisicamente forçados a realizar suas tarefas. Entretanto, existiu e existe uma imensidão de grupos civilizatórios nos quais os indivíduos se subordinam voluntariamente às autoridades, um interesse “real e consciente” de manter essa ordem autoritária, por mais que esse não esteja incluído no grupo dominante, o que torna toda essa relação ainda mais estranha. 

A possibilidade de explicar esse evento analisando o indivíduo e seu caráter como sendo formados de modo isolado em relação à sociedade não é mais satisfatória, se torna óbvia a conexão. Não existem mais argumentos sólidos capazes de sustentar uma argumentação que independe do fator psíquico do indivíduo enquanto criado, educado e desenvolvido nesse meio. A relação, inicialmente, com os pais e, posteriormente, com outros ciclos (escola, trabalho, religião, amigos) é fator decisivo para a manutenção ou destruição do regime social vigente. Segundo Horkheimer (1990, p.213) “Considero o homem, diz Helvétius, ‘um aluno de todos os objetos que o rodeiam, de todas as situações que o coloca o acaso, enfim de todos os fatos que lhe acontecem’” 

O fator mais importante e indispensável para perpetuar a aceitação do absolutismo no indivíduo é a família. Essa instituição é tão importante que dá nome ao capítulo tratado, “Autoridade e família”. Existem alguns mecanismos ocorrentes no período de desenvolvimento do indivíduo em relação aos seus pais que são responsáveis por moldar o consciente e o inconsciente desse. Horkheimer deixa nítida a influência dos pais sob os sentimentos e desejos daquela criança. A família molda o indivíduo em acordo com o que se deseja de um homem ou uma mulher adulto(a), em acordo com o esperado pela sociedade, mais especificamente pela burguesia, que deseja permanecer no poder e desincentiva qualquer atitude rebelde que coloque em xeque o seu prestígio social.

Essa se tornou uma forma extraordinária de manipulação, de absolutismo. Se torna literalmente absoluto o poder burguês, ele controla consciente e inconscientemente os sentimentos e desejos das outras classes e da sua . E, por meio dos mecanismos que serão abordados posteriormente, essa manipulação se perpetua de pai para filho com excelência, e dificilmente essa corrente é quebrada.

Como o autor bem aponta, “a tarefa da família de educar para o comportamento autoritário” já havia sido aplicada pelo cristianismo, e o próprio Santo Agostinho comentou sobre. Horkheimer cita um trecho da obra de Agostinho no qual é explicado a importância de a dicotomia mandar e obedecer ser introduzida no meio familiar, para adaptar o indivíduo a essa dicotomia “natural” no ambiente extrafamiliar. Entretanto, apesar de essa relação estar presente no texto de Santo Agostinho, há uma grande diferença: o autor medieval trata apenas da imposição consciente. 

Esse trecho foi trazido pelo autor apenas para expor que a manipulação familiar já era presente mesmo no período medieval. Será aprofundado, no entanto, a instância primordial e não comentada que é a inconsciente.

Ainda consciente, mas de forma um pouco mais profunda, a manipulação da doutrina protestante teve papel essencial na força de manutenção do regime social que privilegia a burguesia. A ideia de predestinação trazida por essa religião torna muito mais fácil a manipulação da massa. Se a criança de classe baixa não consegue ser um empresário, por exemplo, não é por conta do sistema que não lhe dá oportunidades, mas dela, que não tem vocação para aquilo, ou até mesmo de Deus, que não escreveu no livro do destino que ela seria rica.

Toda a explicação presente neste texto até o momento é de ordem consciente, ainda não foram abordados argumentos que sustentem a explicação inconsciente desse fenômeno. Como já dito, é imprescindível analisar a parte inconsciente. Existem elementos presentes em uma imensa parte dos indivíduos que, por mais que eles próprios não tenham consciência, os impedem de questionar tal regime social, de questionar o porquê de ele precisar trabalhar 15h por dia para não morrer de fome, ou o porquê de ele precisar correr risco de vida em uma guerra para “defender sua nação”, nação essa que não faz absolutamente nada por ele.

Abordarei aqui dois fatores psíquicos que julgo de suma importância para a compreensão desse fenômeno: o conceito psicanalítico de identificação e o par sadismo-masoquismo. Comecemos, então, pelo conceito de identificação.

O significado de identificação na psicanálise é um pouco diferente do que o que se utiliza habitualmente na língua portuguesa. Não se trata de uma identificação no sentido de encontrar algo no outro que se assemelha a um elemento que se tem em si, mas tornar-se idêntico ao outro. A identificação que nos interessa 

corresponde à forma reflexiva do verbo ‘identificar’, isto é, ‘identificar-se’. Diremos que um sujeito se identifica com alguém ou alguma coisa quando ele se confunde com esse alguém ou essa coisa, quando ele vai até o outro para assimilá-lo e assimilar-se a ele, até tornar-se idêntico. (NASIO, 1999, p.80)

Existem, então, dois tipos de identificação: a consciente e a inconsciente. A primeira é um movimento consciente do indivíduo em direção ao outro, seja esse outro um ídolo, um líder ou seu próprio pai. A segunda, que é a que mais nos interessa, se dá de uma maneira que o indivíduo não tem consciência, apesar de ser um movimento ativo, de que está se tornando idêntico ao outro. Dividiremos, ainda, a identificação inconsciente em duas classes, que chamaremos aqui de identificação de traços físicos e a de traços sentimentais. A identificação de traços físicos é percebida quando, por exemplo, o filho começa a falar no mesmo tom que o pai, caminhar na mesma passada, fazer os mesmos gestos, e tudo isso de forma inconsciente. A segunda forma de identificação, que é novamente a que cabe ao texto, é a de traços sentimentais. 

Nesse tipo de identificação o indivíduo começa a assumir para si, de forma inconsciente, as “emoções, sentimentos, afetos, desejos e até fantasias” (NASIO, 1999, p. 82) daquele com o qual ele se identifica. Nesse sentido, então, o filho, por exemplo, começa a ter os mesmos medos e desejos do pai. Entretanto, pode ocorrer um fenômeno interessante que é o fato de muitas vezes os sentimentos que o filho adota do pai serem desconhecidos até mesmo pelo próprio pai, medos e desejos presentes apenas no inconsciente do pai dos quais ele não tem consciência. Isso permite, portanto, que os medos presentes no inconsciente do pai em relação à autoridade da burguesia, em relação à própria autoridade em si, relações de obediência e etc. sejam transferidos para o inconsciente do filho sem que ambos percebam. Esse fenômeno permite, portanto, que o medo em relação à autoridade burguesa, ou qualquer outra autoridade, seja perpetuado por gerações sem que isso seja percebido.

Outro fator de grande importância para a compreensão do porquê o caráter autoritário ser tão presente na sociedade analisada por Horkheimer é o sadismo-masoquismo, ou sadomasoquismo, termo utilizado particularmente por Daniel Lagache. Sadismo e masoquismo são dois conceitos que, segundo a teoria psicanalítica, estão interligados. 

Erich Fromm, psicanalista e filósofo do século XX, foi um dos pilares da discussão que intersecciona o sadomasoquismo e a Teoria Crítica. Segundo o psicanalista, “o caráter sadomasoquista constitui a base pulsional da personalidade autoritária” (ROUANET, 1986, p.55). Mas é necessário, antes, passar pela explicação referente ao sadomasoquismo em si para, posteriormente, abordá-lo enquanto ferramenta de análise social.

O sadismo consiste na realização da pulsão de dominação do indivíduo, enquanto o masoquismo é o retorno dessa pulsão ao mesmo. O prazer no sadomasoquismo está relacionado, portanto, em um momento, na obediência ao dominante e, em outro, em ser o dominante. 

“A submissão incondicional ao poder implica, ao mesmo tempo, inveja e agressividade” (ROUANET, 1986, p.56). Por mais que haja prazer na obediência, o indivíduo tem inveja da posição de dominância e deseja estar nela também, no entanto, ao trazer o sadomasoquismo para a Teoria Crítica, essa mudança de postos (dominante-dominado) não se dá entre as mesmas pessoas. 

No capitalismo monopolista, como era o caso da Alemanha nazista, existia uma enorme aceitação em relação à opressão do Führer. Em relação a ele, os papéis nunca mudavam, ele sempre seria o dominante e o restante da população seriam os dominados. Mas, como já dito, as pessoas de caráter sadomasoquista desejam ocupar os dois postos e, portanto, assim faziam.

“Os sentimentos hostis e agressivos que não podem dirigir-se contra os poderosos dirigem-se contra os débeis, A impossibilidade de exercer sua vontade contra os fortes é compensada pelo prazer de sujeitar os indefesos a uma tirania implacável” (FROMM, 1932, p.287)

“O capitalismo monopolista altera os dados da realidade”. A cada vez maior concentração econômica, e, por consequência, de poder, anula aquela ilusão de mobilidade econômica implementada pela lógica liberal. A crise e o desemprego começam a assumir forças “irredutíveis à ação consciente do homem” e “nesse momento, o caráter sadomasoquista se torna dominante”, pois quanto mais guerras e catástrofes tomam conta da vida do indivíduo, mais “violenta e mais generalizada é a estrutura pulsional sadomasoquista, e, portanto, a estrutura caracterológica autoritária”. O caráter masoquista que permite o prazer nesse tipo de situação, é o que “permite ao homem suportar tal existência” e mostra-se “como uma das condições psíquicas mais importantes para o funcionamento da sociedade” (FROMM, 1932, p.291). Tal caráter sadomasoquista se torna, então, uma ferramenta muito poderosa na manutenção do sistema autoritário. Este permite a aceitação do domínio de um grupo pequeno de pessoas ou até mesmo de uma única pessoa, o Führer messiânico.

A forma que o indivíduo pensa não é mais a mesma do liberalismo, ele sabe que não há mais possibilidade de ascensão, mas além de tudo, ele tem a “vontade de não ascender”. O homem é, então, moldado a sentir prazer com tal situação. Entretanto, ele sabe que o Führer “não é um modelo a ser imitado”, este é muito superior. Não podendo ser igual a ele, o indivíduo tenta “participar de sua grandeza” desta forma:

Essa gratificação substitutiva narcisista, obtida pela submissão masoquista a um Poder mais alto, não é alcançada apenas na relação com o líder, mas no fato de participar do brilho da Nação ou da Raça. Quanto mais o indivíduo valoriza a força e a grandeza do Poder do qual participa, maior sua gratificação. (FROMM, 1932, p. 294)

O indivíduo está, agora, devidamente manipulado. As formas de socialização deste, primeiro com a família, e, posteriormente, com “aparelhos de Estado”, buscarão a produção em massa de homens e mulheres com caráter social sadomasoquista, assegurando, assim, a manutenção desse regime social, o capitalismo monopolista.

Estes conceitos psicanalíticos (a identificação e o sadomasoquismo) são apenas dois que podem ser e foram utilizados como ferramentas no auxílio da análise social realizada pela Teoria Crítica. Como Horkheimer bem apontou, passou a ser impossível entender os fenômenos ocorridos na sociedade apenas através de uma análise socioeconômica que independe do fator psíquico e, de fato, isso se mostrou verdadeiro. A compreensão dos movimentos sociais fica mais clara ao ser desenvolvida uma explicação que leve em conta conceitos psicanalíticos.