O útil e o honesto em Cícero

O útil e o honesto em Cícero

A fim de esclarecer a proposição socrático-estóica de que o útil e o honesto não devem ser vistos como coisas diferentes, serão abordados aqui trechos do livro II de “Dos Deveres”. Trechos nos quais Cícero aponta precisamente o motivo pelo qual essas duas características estão intrinsecamente ligadas, o porquê de ser paradoxal afirmar que uma ação pode ser útil, mas não honesta, e vice-versa. Serão trazidos trechos que, mesmo que sozinhos, já explicariam essa unidade, entretanto, colocarei algumas citações selecionadas que justificam umas às outras para que seja possível precisar essa afirmação tão importante nas discussões de filosofia política ao longo da história.

Para que fiquem claras as afirmações aqui feitas é necessário elucidar o que será considerado útil e o que será considerado honesto. Por útil entender-se-á aquilo que favoreça a manutenção do poder do governante por meio da satisfação dos interesses e preferências do povo. Por outro lado, será considerado honesto aquilo que revela no governante uma elevação de caráter, uma ação que o qualifique como virtuoso, ético, justo, etc. Será visto que, apesar de definições diferentes, essas duas máximas são como retas paralelas sem distância entre si, será apontada uma fusão entre elas que, na visão de Cícero, as torna inseparáveis.

Iniciando pelo tópico 32, o autor afirma:

O amor da multidão é fortemente provocado pela fama e pela reputação de liberdade, benevolência, justiça, fé e todas aquelas virtudes associadas à serenidade e à brandura de costumes. (CÍCERO, 1999, p. 94)

Pode-se entender, por essa afirmação, que é praticamente inevitável o apreço do povo frente a um representante possuidor de características que, unidas, tornam um homem honesto, como apontado na definição feita no parágrafo anterior.

No tópico seguinte, 33, Cícero vai apontar que “nos homens justos e fiéis, isto é, nos bons [honestos], a fé é tanta que não há lugar para suspeitas de fraude ou injustiça”, e afirma, logo em seguida, que “julgamos acertado confiar a eles” até mesmo “nossos filhos”. Novamente é possível observar a união prática das duas máximas. O fato de o governante ser honesto, portador de virtudes apreciadas pelo povo, faz com que isso mantenha seu poder, pois os homens confiam cada vez mais suas vidas a ele. Ou seja, mais uma vez, o honesto sendo útil, e vice-versa.

Alguns tópicos adiante, no 36, é dito que as pessoas

exaltam e elogiam calorosamente as pessoas nas quais julgam perceber virtudes excelentes e singulares, e desdenham e desprezam aquelas em que acham não haver nem virtude, nem coragem, nem energia. (CÍCERO, 1999, p.95 – 96)

Este tópico é bastante incisivo quanto a qualquer tipo de dúvida, é deixado bem claro que os homens “admiram todas as coisas que julgam grandes e superiores à sua própria expectativa”, de modo que os elogios e admirações em direção do governante, virtuoso, honesto, são logicamente inevitáveis, não há nada que possa tornar isso uma inverdade. É bem quisto aquele que, segundo o autor, é visto como útil para si e para seu semelhante.

Posteriormente (38), apontar-se-á, novamente, a importância e a utilidade de ser justo. Cícero diz que “a justiça, virtude com base na qual os homens são considerados bons”, para a população, não é sem propósito, mas “prodigioso”. Ele ainda acrescenta que o homem justo realiza as “três condições” para a glória: “tanto a benevolência (porque deseja ser útil a muitos) quanto, pelo mesmo motivo, a fé e a admiração, porque desprezam e negligenciam aqueles atrativos para os quais a maioria, inflamada pela avidez, é arrastada”. É fácil perceber, então, a importância que o autor designa à justiça em meio a tantas outras virtudes. Obviamente quanto mais virtudes possuir, melhor, entretanto, caso se tenha todas as virtudes com exceção da justiça, receio que não será o bastante. A justiça deve ser “cultivada e preservada” por dois motivos: “tanto por si mesma (pois, de outra forma, não seria justiça), quanto para aumentar a honra e a glória”.

Existe, no tópico 43, uma citação de Sócrates que ilustra de maneira clara como o útil caminha junto com o honesto. A citação diz que

o caminho mais próximo e curto para a glória é ser o que se deseja parecer. Pois, se cuidam alguns obter glória estável com simulações e ostentação vã, não só com palavras, mas também com fisionomia fingida, erram cabalmente. A verdadeira glória deita raízes e até as espalha, mas os engodos caem rapidamente como flores miúdas; o que é simulado não pode ser duradouro. (CÍCERO, 1999, p. 99)

Essa é uma representação quase que perfeita de todo o tema tratado acima, pois torna necessária a verdadeira virtude caso se queira glória. Em outras palavras, para se ter a utilidade que as virtudes trazem consigo não basta parecer tê-las, não basta parecer, é necessário ser honesto, é obrigatória a posse verdadeira das virtudes.

Bastante possível e pertinente é, também, a comparação das afirmações feitas por Cícero com a ideia de felicidade na visão da filosofia estóica. Segundo Pierre Hadot:

A escolha estóica situa-se, assim, na linha reta da escolha socrática e é diametralmente oposta à escolha epicurista: a felicidade não consiste no prazer ou no interesse individual, mas na exigência do bem, ditada pela razão e que transcende o indivíduo. (HADOT, 1999, p. 188)

Percebe-se, novamente, a existência de algo que conecta a felicidade individual à do coletivo. Não há, segundo tal tradição, a felicidade individual enquanto o todo sofre, enquanto o todo está infeliz. De novo é percebida a relação paradoxal entre a alegria de um e a tristeza do todo. Aplicando isso à visão política, dita por Cícero, é inevitável afirmar, por consequência, que o útil ao governante deve necessariamente se harmonizar com o honesto.

Estas, entre muitas outras, são passagens tanto da obra de Cícero quanto da filosofia estóica que são capazes de reafirmar tal visão sobre o útil e o honesto. Toda atitude honesta será útil na medida em que é admirável, na visão do povo, um governante que seja virtuoso, justo e fiel. Por outro lado, toda ação útil será honesta, pois aquilo que mantém o poder do governante nada mais é do que o amor de seu povo, e este advém única e exclusivamente, na visão de Cícero, de atitudes virtuosas.