Kant e o sono dogmático

Kant e o sono dogmático

Tendo em vista a passagem dos Prolegômenos, de Immanuel Kant, na qual o filósofo afirma que David Hume foi o grande responsável por retirar-lhe de seu sono dogmático, este trabalho visa elucidar qual foi a crítica de Hume à metafísica responsável por incentivar Kant a estabelecer um estatuto científico da metafísica, assim como as demais áreas da ciência, como a matemática e a física, já possuíam. 

A metafísica, até Hume, era tida como necessária e inquestionavelmente verdadeira. Os conceitos produzidos por ela eram tidos, para os filósofos, como imprescindíveis, por isso Kant afirma que essa área da filosofia era extremamente dogmática. Mas de que forma D. Hume mudou o rumo da discussão? 

O cético e empirista Hume fez uma proposição que, apesar de não ter sido tida como relevante pelos filósofos de seu tempo, como Reid, Oswald Beattie, e finalmente Priestley, deveria, segundo Kant, ter levado esses a pensar e defender a metafísica. O ataque do pensador empirista à metafísica foi: com base em que a razão postula a necessidade da conexão de causa e efeito? Por que ela acha que determinado resultado é imprescindível uma vez que isto ou aquilo foi posto? Hume provou, segundo Kant, “de modo irrefutável”, que essa conexão de causa e efeito que a razão tenta produzir é inteiramente fictícia, um bastardo da imaginação, fruto do hábito da razão que, por ter conhecido essa conexão uma vez, a julga sempre necessária. Essa afronta foi, aos olhos de Kant, algo que poderia ter “acendido uma luz, caso tivesse encontrado uma mecha receptiva cuja chama fosse cuidadosamente mantida e alimentada”. Hume, entretanto, se precipitou, segundo o filósofo prussiano, ao dizer que, por conta disso, a metafísica não era logicamente possível. O empirista afirmou que, o fato de as supostas cognições a priori da metafísica serem fruto de uma conclusão fictícia, a saber, a conexão entre causa e efeito, a tornava, consequentemente, mera ficção da razão. Apesar de precipitada, é uma crítica embasada num pensamento lógico, e que deveria ter tido mais atenção dos pensadores da época, mas Hume não foi compreendido. Ele teve a iniciativa de questionar o inquestionável até então, se opondo ao dogma da metafísica. É importante notar que Hume não colocou em questionamento a utilidade da conexão causa e efeito, mas sua possibilidade. Ela seria de extrema utilidade, se fosse possível. 

Tal dúvida proposta por David Hume leva ao tema do trabalho. 

Admito sem hesitar: a recordação de David Hume foi exatamente aquilo que, há muitos anos, primeiro interrompeu meu sono dogmático e deu uma direção completamente diversa às minhas investigações no campo da filosofia especulativa. (KANT, 2014, p. 28) 

Kant, ao se deparar com esse questionamento, no mínimo desconfortante, se sentiu na obrigação de defender a metafísica, por assim dizer. Immanuel Kant julgou o trabalho de Hume como decisivo, no entanto, incompleto. O empirista, ao questionar a possibilidade da metafísica, “ancorou seu barco, para mantê-lo seguro, na praia” do ceticismo, ao invés de dar continuidade à sua crítica. Kant, por sua vez, deseja tomar o timão do barco metafísico para terminar o serviço.  

Foi formidável o trabalho de David Hume, como o próprio Kant afirma. No entanto, o filósofo prussiano toma as rédeas da metafísica e decide levá-la a um lugar nunca antes explorado. Seria necessário, para se estabelecer um estatuto metafísico, explorar e explicar cada aspecto da razão pura a fim de se conseguir provar sua autonomia quanto à experiência.

Mas a razão pura é uma esfera tão isolada e tão completamente coesa em seu interior que não se pode tocar em nenhuma de suas partes sem perturbar todo o resto, nem ajustá-las sem que se tenha antes determinado para cada uma seu lugar e sua influência nas outras. (KANT, 2014, p.31)

Querendo provar a possibilidade da metafísica, Kant percebeu que, para isso, deveria provar a possibilidade de conceitos puros da razão.

Para isso, o autor decide analisar as ciências independentes dos sentidos que já possuem um estatuto. Ele analisa, nos Prolegômenos, o que torna possível a matemática pura, bem como a ciência pura da natureza, para chegar, então, naquilo que torna possível o estatuto da metafísica em geral. Entretanto, como bem apontado por Kant, nem a matemática pura e nem a ciência pura da natureza precisam 

de nenhuma dedução como a que realizamos até agora para ambas; pois a primeira apoia-se em sua própria evidência, e a segunda, embora surgindo de fontes puras do entendimento, apoia-se na experiência e em sua contínua confirmação […]. Assim, ambas as ciências necessitam da investigação precedente não para si próprias, mas com vistas a outra ciência, a saber, a metafísica. (KANT, 2014, p.107)

O fato de as cognições transcendentes da razão não serem passíveis de refutação ou confirmação por outro meio que não a própria razão foi o que levou Hume a cometer o erro em sua tese. De acordo com Kant, a “enumeração, classificação e especificação desses conceitos”, a saber, os tipos de cognição e também os “conceitos pertencentes a cada um deles”, não seria possível utilizá-los da maneira correta, ou seja, sem saber se “o que se possui já é o suficiente, ou se, e onde, algo ainda poderia estar faltando”. Por conta disso Hume foi tão importante para Kant e a metafísica. Sem a advertência humeana quanto ao dogma metafísico anterior, provavelmente Immanuel Kant não teria se empenhado de tal maneira para provar a possibilidade dos conceitos metafísicos.